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Ponte da Mizarela
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in Ruivães, 4850 Vieira do Minho, Portugal
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- Uploaded on May 8, 2007
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by Andre Luis Acosta -
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- Camera: SONY DSC-H2
- Taken on 2007/05/07 16:57:56
- Exposure: 0.008s (1/125)
- Focal Length: 19.80mm
- F/Stop: f/4.000
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Andre Luis Acosta, on May 8, 2007, said:
A ponte da Misarela
[excerto do romance histórico "O mutilado de Ruivães - Das invasões francesas às lutas civis", de Mário Moutinho e A. Sousa e Silva, Braga, 1980]
"É uma ponte de arquitectura extravagante, louca, de um só arco, com mais de treze metros de vão, lançada com arrojo sobre dois rochedos, onde as águas do Rabagão se estreitam e despedaçam com fragor e saltam a grande altura, transformando-se em vaporosa chuva. O pavimento, abaúlado, mede 27 metros de comprimento. Fica no fundo de um desfiladeiro alcantilado, a um quilómetro da confluência do Rabagão com o Cávado. Tão medonho e agreste é o sítio e tão severo o aspecto da ponte, que a vivíssima imaginação do povo não tardou a tecer-lhe lendas.
Diz-se que um padre, querendo fazer uma pirraça ao Diabo, se disfarçou em salteador perseguido pelas justiças de Montalegre, e foi certo dia, à meia-noite, àquele lugar para passar o rio. Como o não pudesse passar, por meio de esconjuros, invocou o auxílio do Inimigo. Ouve-se um rumor subterrâneo e eis que aparece, afável e chamejante, o anjo rebelde:
'Que queres de mim?' - perguntou ele.
'Passa-me para o outro lado e dar-te-ei a minha alma.'
Satanás, que antegozava já a perdição do sacerdote, estendeu-lhe um pedaço de pergaminho garatujado e uma pena molhada em saliva negra, dizendo:
O padre assinou. O Demónio fez um gesto cabalístico e uma ponte saiu do seio horrendo das trevas.
O clérigo passa e, enquanto o diabo esfrega um olho, saca da caldeirinha da água benta, que escondera debaixo da capa de burel, e asparge com ela a infernal alvenaria, fazendo o sinal da cruz e pronunciando bem vincadas as palavras do exorcismo.
Lúcifer, logrado, deu um berro bestial e desapareceu num boqueirão aberto na rocha, por onde sairam línguas de fogo, estrondos vulcânicos e fumos pestilenciais.
O vulgo das redondezas, na sua ignorância e ingenuidade, e não sabemos a origem, aproveitaa-se da ponte para ali exercer um rito singular.
Quando uma mulher, decorridos que sejam dezoito meses após o seu enlace matrimonial, não houver concebido, ou, quando pejada, se prevê um parto difícil ou perigoso, não tem mais que ir à Mizarela, à noite, para obter um feliz sucesso. Ali, com o marido e outros familiares, espera que passe o primeiro viandante. Este é então convidado para proceder à cerimónia, a qual consiste no baptismo in ventris do novo ou futuro ser. Para isso, o caminhante colhe, por meio de uma comprida corda com um vaso adaptado a uma das extremidades, um pouco de água do rio e com a mão em concha deita-a no ventre da paciente por um pequeno rasgão aberto no vestuário para este efeito, acompanhando a oração com a seguinte ladaínha:
Eu te baptizo criatura de Deus, Pelo poder de Deus, e da Virgem Maria. Se for rapaz, será 'Gervás'; se for rapariga, será Senhorinha. Pelo poder de Deus e da Virgem Maria, um Padre-Nosso e uma Avé-Maria.
O barulhar iracundo da cachoeira no abismo imprime a estas cenas um cunho de tétrica magia.
Segue-se depois uma lauta ceia, assistindo, geralmente, o improvisado padrinho. E o êxito é completo: um neófito virá alegrar a família.
Claro que se na primeira noite não passar o viandante desejado, a viagem à Mizarela repetir-se-á até o cerimonial se realizar nas condições devidas.
De um dos lados ergue-se um enorme rochedo que o povo denominou 'Púlpito do Diabo', por crer que o Demo vai ali pregar à meia-noite, quando as bruxas das redondezas se reunem em magno concílio..."
Fonte:
Andre Luis Acosta, on May 8, 2007, said:
A ponte da Misarela
[excerto do romance histórico "O mutilado de Ruivães - Das invasões francesas às lutas civis", de Mário Moutinho e A. Sousa e Silva, Braga, 1980] "É uma ponte de arquitectura extravagante, louca, de um só arco, com mais de treze metros de vão, lançada com arrojo sobre dois rochedos, onde as águas do Rabagão se estreitam e despedaçam com fragor e saltam a grande altura, transformando-se em vaporosa chuva. O pavimento, abaúlado, mede 27 metros de comprimento. Fica no fundo de um desfiladeiro alcantilado, a um quilómetro da confluência do Rabagão com o Cávado. Tão medonho e agreste é o sítio e tão severo o aspecto da ponte, que a vivíssima imaginação do povo não tardou a tecer-lhe lendas.
Diz-se que um padre, querendo fazer uma pirraça ao Diabo, se disfarçou em salteador perseguido pelas justiças de Montalegre, e foi certo dia, à meia-noite, àquele lugar para passar o rio. Como o não pudesse passar, por meio de esconjuros, invocou o auxílio do Inimigo. Ouve-se um rumor subterrâneo e eis que aparece, afável e chamejante, o anjo rebelde:
'Que queres de mim?' - perguntou ele.
'Passa-me para o outro lado e dar-te-ei a minha alma.'
Satanás, que antegozava já a perdição do sacerdote, estendeu-lhe um pedaço de pergaminho garatujado e uma pena molhada em saliva negra, dizendo:
O padre assinou. O Demónio fez um gesto cabalístico e uma ponte saiu do seio horrendo das trevas.
O clérigo passa e, enquanto o diabo esfrega um olho, saca da caldeirinha da água benta, que escondera debaixo da capa de burel, e asparge com ela a infernal alvenaria, fazendo o sinal da cruz e pronunciando bem vincadas as palavras do exorcismo.
Lúcifer, logrado, deu um berro bestial e desapareceu num boqueirão aberto na rocha, por onde sairam línguas de fogo, estrondos vulcânicos e fumos pestilenciais.
O vulgo das redondezas, na sua ignorância e ingenuidade, e não sabemos a origem, aproveitaa-se da ponte para ali exercer um rito singular.
Quando uma mulher, decorridos que sejam dezoito meses após o seu enlace matrimonial, não houver concebido, ou, quando pejada, se prevê um parto difícil ou perigoso, não tem mais que ir à Mizarela, à noite, para obter um feliz sucesso. Ali, com o marido e outros familiares, espera que passe o primeiro viandante. Este é então convidado para proceder à cerimónia, a qual consiste no baptismo in ventris do novo ou futuro ser. Para isso, o caminhante colhe, por meio de uma comprida corda com um vaso adaptado a uma das extremidades, um pouco de água do rio e com a mão em concha deita-a no ventre da paciente por um pequeno rasgão aberto no vestuário para este efeito, acompanhando a oração com a seguinte ladaínha:
Eu te baptizo criatura de Deus, Pelo poder de Deus, e da Virgem Maria. Se for rapaz, será 'Gervás'; se for rapariga, será Senhorinha. Pelo poder de Deus e da Virgem Maria, um Padre-Nosso e uma Avé-Maria.
O barulhar iracundo da cachoeira no abismo imprime a estas cenas um cunho de tétrica magia.
Segue-se depois uma lauta ceia, assistindo, geralmente, o improvisado padrinho. E o êxito é completo: um neófito virá alegrar a família.
Claro que se na primeira noite não passar o viandante desejado, a viagem à Mizarela repetir-se-á até o cerimonial se realizar nas condições devidas.
De um dos lados ergue-se um enorme rochedo que o povo denominou 'Púlpito do Diabo', por crer que o Demo vai ali pregar à meia-noite, quando as bruxas das redondezas se reunem em magno concílio..."
As invasões francesas
Relato da passagem pelas pontes do Saltadouro e da Misarela, entre 15 e 17 de Maio de 1809, das tropas do II Corpo de Exército Francês, comandadas pelo Duque da Dalmácia, Marechal Soult, aquando da retirada das tropas francesas (fim da segunda invasão francesa).
[excertos do livro "Aqui não passaram! - O erro fatal de Napoleão", de Carlos de Azeredo, Livraria Civilização Editora, Porto, 2005]
A ponte do Saltadouro
"O Major Warre e o Capitão Gomes, chegados a Ruivães, entraram em contacto com o Capitão-Mor António Luís de Miranda de Magalhães e Meneses e é provável que tenham aconselhado o corte das três pontes de que o II Corpo se poderia servir na região:
(...) Em Salamonde, o Duque da Dalmácia obteve informações de que o Brigadeiro Silveira estava instalado nas apertadas gargantas da Serra da Cabreira, barrando-lhe a estrada de Braga para Chaves; (...) Deste modo, Soult decidiu rapidamente abandonar a estrada para Chaves e seguir a vereda para Montalegre.
Ninguém julgaria possível fazer passar por ali um exército (...). Por aí se lançaram as tropas francesas, rotas, descalças, famintas e escorraçadas (...).
(...) Soult foi também informado de que a Ponte do Saltadouro, ou Ponte Nova (...) estava defendida e possivelmente cortada, por populares e algumas ordenanças.
Em verdade, o Capitão-Mor de Ruivães, António Luís de Miranda Magalhães e Meneses, mandara convocar, pelos párocos das freguesias próximas, as Ordenanças da sua área, e ao seu apelo acorreram cerca de 1300 homens, dos quais a maior parte tinha como armamento simples utensílios de trabalho, piques ou algumas espadas velhas; só muitos poucos se encontravam equipados com obsoletas armas de pederneira e tinham como apoio duas velhas peças de artilharia.
(...) O Capitão António Luís de Miranda, ainda neste dia, dispôs as suas forças ao longo da escarpada margem direita do rio Saltadouro ou de Ruivães, entre a Ponte de Rêz na estrada para Chaves e a Ponte de Saltadouro no caminho para Montalegre.
Junto de cada ponte colocou uma das bocas de fogo de que dispunha e mandou ainda algumas forças para a Ponte da Misarela; os efectivos colocados junto de cada uma destas três pontes tinham como missão efectuar o seu corte e levar a cabo a sua defesa.
No Saltadouro, os defensores levaram a cabo a tarefa de cortar o único arco da ponte com bastante rapidez e ao fim de algumas horas a passagem estava cortada.
Soult não perdeu tempo: mandou vir à sua presença (...) o Major Dulong Rosnay (...) e encarregou-o de, com 100 homens à sua escolha, conquistar a passagem da Ponte do Saltadouro por uma acção de surpresa durante a noite.
(...) O bravo Major (...) a coberto da noite, aproximou-se em completo silêncio dos restos da velha ponte (...). Dulong deixou os seus homens escondidos nas proximidades e sozinho adiantou-se para estudar a situação; (...) e ali constatou com espanto e incredulidade que os defensores (...) tinham deixado uma prancha estendida entre os dois braços da ponte.
Esquecimento? Desleixo? (...) Na verdade, um daqueles acasos imprevistos e inacreditáveis que tantas vezes alteram o curso da história!
Dulong voltou a rastejar até à ponte e fez passar atrás de si, um a um, os seus militares ao longo da prancha, olhos fitos na voragem do abismo (...) Assim, o Major foi colocando a sua força na margem oposta e cercando nas trevas a cabana onde se abrigavam os incautos defensores da ponte, cuja sentinela fora abatida com um silencioso golpe de sabre.
E foi de súbito, sem tempo para reagir, que os ensonados camponeses vislumbraram, à luz ténue dos restos de uma fogueira, o lampejar do aço frio dos sabres e das baionetas (...).
Poucos segundos (...) bastaram para consumar aquela tragédia quase silenciosa.
(...) As restantes forças do Capitão-Mor, finalmente alertadas com o que se passava junto à ponte, tentaram reagir, mas ao perceberem que os franceses tinham passado já a ponte em número que a escuridão e a surpresa multiplicavam assustadoramente, debandaram em pânico, monte acima!
(...) A passagem dos franceses com os seus 4000 cavalos, sobre uma estreita passagem sustentada por alguns troncos sem guardas, demorou o dia todo (...).
Mas após duas horas de marcha a tropa francesa foi detida no sítio da Ponte da Misarela, sobre o rio Rabagão: o pesadelo de Soult ainda não terminara!"
Ruivães - Ponte da Misarela
A Ponte da Misarela
"Entricheirados na margem direita, guardando a ponte, cuja passagem estava barrada por pesados obstáculos, aguardavam cerca de 400 homens, comandados pelo Sargento-Mor José Maria de Miranda de Magalhães e Meneses, filho do Capitão-Mor de Ruivães.
Mandado na véspera para a Misarela, por seu pai, com a incumbência de cortar a ponte e efectuar a sua defesa, o José de Miranda não conseguira convencer a maior parte dos seus homens, naturais da região, da absoluta conveniência em cortar o arco da ponte.
Como haviam de passar o rio com as suas colheitas ou os seus gados? Como passar para irem à feira ou a Ruivães, quando as águas fossem grossas? Para mais, o que era necessário era pôr fora da nossa Terra os franceses! Para quê cortar-lhes a passagem para a fronteira? Quem fez a Ponte de Misarela não nos faz outra como ela! (...)
Impotente, o Sargento-Mor dispôs as suas forças pelas escarpas que dominavam a passagem, abrigadas atrás da penedia e dos robustos castanheiros e carvalhos que ali cresciam.
A meio da manhã foram avistados os primeiros militares inimigos avançando rapidamente para o Rabagão; eram uma longa fila, interminável, de homens e animais, fatigados, que marchavam para Norte acossados, mas que a fome, o número e o ódio ainda mantinham temíveis, perigosos e violentos.
Assim que a guarda avançada do II Corpo chegou à distância de tiro, os defensores romperam com um fogo nutrido que dizimou o pelotão da frente e fez recuar, surpreendidos, os que se lhe seguiam.
(...) Soult, uma vez nas proximidades da ponte, estudou a situação cuidadosamente e encarregou os Generais Loison e Heudelet de montarem e executarem um ataque a fim de tomar à viva força a passagem, e as posições portuguesas.
(...) Após vários assaltos frustrados que se prolongaram ao longo do dia 16, esta força logrou, ao fim da tarde, conquistar finalmente a passagem e desalojar das posições mais próximas os camponeses (...)
Vencida esta dificuldade, com bastante perda de tempo, pouco descanso tiveram as tropas de Soult para admirar a beleza da paisagem (...)
Na realidade, a largura exígua da ponte da Misarela, agravada pela destruição das suas guardas, dificultava a passagem, com grandes demoras causadas pela resistência das mulas e dos cavalos que se apavoravam com o abismo. É ainda preciso ter em conta o grande alongamento imposto pela vereda que obrigava as tropas a desfilarem em frente por um, facto que levava a que o II Corpo tivesse já a sua testa para lá da Ponte da Misarela enquanto a sua retaguarda se mantinha entre Salamonde e a Ponte do Saltadouro.
(...) Ao ouvir-se na retaguarda o troar da artilharia e basta fuzilaria, as tropas imobilizadas, sem poderem manobrar para se defenderem, e sentindo-se completamente indefesas caíram no pânico.
Muitos homens, ainda na vereda, procuravam avançar a todo o custo empurrando os camaradas da frente, atropelando-se uns aos outros para chegarem às imediações da ponte; na sua ânsia de escaparem de uma terrível situação, lançavam fora armas e equipamento; (...) muitos homens na ponte eram atirados ao abismo pelo aperto e pela confusão (...)
Foi uma situação terrível, que poderia ter-se transformado numa autêntica catástrofe se a noite próxima não viesse suspender os ataques dos perseguidores.
(...) A última tropa de Soult a passar a ponte da Misarela e a deixar aquele cenário de morte e horror, foi a Brigada Reynaud da Divisão Merle, entre as dez e a meia-noite de 16 para 17.
(...) Quando na manhã seguinte os perseguidores de Soult se aproximaram da Misarela, encontraram um espectáculo que lhes deu a dimensão do terror e da tragédia por que tinham passado os franceses (...)."
[excertos do livro "Aqui não passaram! - O erro fatal de Napoleão", de Carlos de Azeredo, Livraria Civilização Editora, Porto, 2005]