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Ipanema - Rio de Janeiro ©Germano Schüür

Zuenir Ventura

A cerimônia se repete todo dia. No começo da noite, quando o sol acaba de cumprir o seu trajeto habitual e desaparece lá pelos lados do Vidigal, os banhistas da Zona Sul se levantam da areia e aplaudem de pé. Os moradores já estão acostumados com o ritual. De casa ouço o barulho das palmas, dos assovios, de gritos e exclamações que se espalham pela Praia de Ipanema entre 19h30m e 19h45m. Às vezes vou ver.

São jovens que não eram nascidos no verão de 68/69, quando o costume foi lançado num "dia de exportação", como se dizia. Diante de um pôr-do-sol como esses de agora, o jornalista Carlos Leonam não se conformou: Essa tarde merece uma salva de palmas! Imediatamente, o grupo em que estava na altura do Posto 9 - Glauber Rocha, Jô Soares, João Saldanha, entre outros - deu início aos aplausos. Depois, o publicitário Roberto Duailib consagrou a cena, recriando-a num comercial de bronzeador para a televisão. A cidade que, segundo Nelson Rodrigues, vaiava até minuto de silêncio era capaz, também, de aplaudir o entardecer.

De lá para cá, tudo mudou - o país, a cidade, o mar, a praia, menos o sol. Em forma de enorme bola de fogo, ele continua realizando sua lenta e cuidadosa operação de descida em direção ao mar. Durante os 10 minutos que leva para mergulhar por inteiro, a praia lotada permanece observando em contrito silêncio, à espera da explosão final.

Na terça-feira passada, porém, foi diferente. O boletim do tempo informara que o céu estaria nublado e que a lua nova se encontrava em transição, como o país. O sol deveria se pôr às 19h43m, mas chegou um pouco atrasado e escondeu-se atrás de estranhas nuvens luminosas, estreitas, dispostas em grupos como se fossem pinceladas ralas e irregulares sobre o azul. A meteorologista Marlene Leal, a quem recorri no dia seguinte, explicou que aqueles "rabos-de-galos" eram formados por diminutos cristais de gelo situados a grandes altitudes. E que o delírio de luz e cor que me deslumbrara ocorria por causa da incidência dos raios solares sobre os cristais. Um mero fenômeno de reflexão chamado cirro-estrato.

No entanto, para a jornalista da TV italiana que estava fazendo uma reportagem sobre a violência no Rio, era outra coisa. Das pedras do Arpoador, câmera na mão, ela não sabia o que admirar mais: se o espetáculo do pôr-do-sol ou o da salva de palmas. Viera atrás do inferno e estava ali, atordoada pela beleza, diante de uma visão do paraíso.

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Caxias do Sul \u002D Rio Grande do Sul, República Federativa do Brasil

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  • Uploaded on January 25, 2007
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    by Germano Schüür